
Quando nasci, uma tia baixinha
dessas bem baixinhas e brabas
disse: Vai, menina! Ser Bárbara na vida! (batizou-me)
Gauche já foi o Carlos
Carregou bandeira a Adélia
Por causa do Chico Buarque, serás então Bárbara
(somente Bárbara, diria um poeta, anos mais tarde)
Tomei a sina pra mim
E bora ser Bárbara, pois sim!
A vida talvez fosse azul...
Não fosse a sina assumida
Ser bárbara assim todo dia,
Coisa que dá um trabalho!
A moça atrás das lentes de contato
Tem olhos que ninguém sabe a cor
Diplomática que aprendeu a ser,
Tem muitos, muitos amigos (e sonhos)
A moça atrás das lentes de contato.
Então a moça, bárbara que era, quis viver muitas vidas
E resolveu ser atriz
(não admitira ela que houvessem outras vidas que por ela não fossem vividas)
E quis viajar muito pra conhecer pessoas e lugares
(não admitira ela que houvessem pessoas e lugares que por ela não fossem conhecidos)
Aí às vezes ela brada:
Meu Deus porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraca.
Mundo mundo, vasto mundo
Mais vasta é minha sina
Vou cumprindo, acertando e errando
E pra quando erro (e são tantas vezes)
Tenho em mim flor de lótus
e emerjo, na superfície
para florescer e errar
quantas outras vezes for necessário.
(Para ser Bárbara, há de ser desdobrável. Eu sou.)
Bárbara M. Vieira