quinta-feira, 13 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

João Mario





Morte.

Como se por aqui rastejasse tua ausência

Perturbadora sombra delineando frestas e cantos
Como se por aqui rastejasse
Possuída de um vazio sufocante
A ausência repugnante de ti.

Como se ainda me lambesse os olhos fechados
A espreitar algum brilho por detrás das pálpebras mortas

Como se ainda molhasse minha língua seca e inerte
Para que dissesse o sim fatal de uma prece
Para que tudo cesse como folhas imóveis ao vento em meio à tempestade
Para que tudo cale em meio a um grito de dor inaudível
Para que tudo seja sorriso na morte e na agonia do fim

Como se aqui rastejasse alguma ausência assim.

João Mario Fleury Corrêa




Blog do poeta:  http://camoesdecueca.blogspot.com/

terça-feira, 4 de maio de 2010

Gullar



Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:                      
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.


Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



Ferreira Gullar

De Na Vertigem do Dia.

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