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quinta-feira, 31 de março de 2011

Leminski

Por um lindésimo de segundo


tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo feito
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se as coisas
fossem todas
afinal de contas 

 

Paulo Leminski


http://www.fotolog.com.br/orlandopedroso/22577095

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CATATAU


(Trecho)

"O verbo acende um fogo, o sujeito vem se aquecer, esse sou eu, como é? Daqui dá para ver o objeto muito bem, além — a terra de ninguém do silêncio. Aqui faz frio, peço desculpas por fazer tão frio, faz tanto tempo que eu sinto frio que já nem sinto frio, já nem sei se isso é frio.
 O Toupinambaoults de tanto farejar marofa virou farofa. Assim não vale. Fiquei idêntico, mesmo eu estou bem aqui refazendo os nós que desatastes e adesatastes: não há mais quem consiga desatar um nó, depois que o rei de Górdio invadiu a Pérsia. Occam ocultus, Occam vultus, Occam, o bruxo. Occam torceu a sinalização. Occam disfarçou as peripécias. Aonde vai com tanta pressa? Vou a toda Pérsia, vai depressa. Occam vê o óbvio. Deixa o óbvio ali. Pensa uma coração e o óbvio desaparece. Occam não pensa nada, se nadifica e falta. A análise começa em casa, palavra. Para limpar lágrimas, uma lápide. Passou por aqui um desconhecido. Assim é que se faz, viu? Aparece na hora. Faz assim, assim se faça. Não é viável que você esteja me vendo. Absolutamente. Consta, não; é exato. O óbvio vive aqui. É aqui-del-rei que ele mora, quanta demora — para um botafora. O óbvio está vivo. Escapou e saltou até lá. Lá saiu, lá ficou, lá vai ele. Lá é grande, grande lá. Ali e lá, algo vem sendo, eu sei o que é isso: é o óbvio. Era uma vez, ele ia. Era uma vez, eu dizia. Era uma luz, um dia. Eu via, era um som na minha vida, me ouvindo. Proponho uma testemunha, um teste. Esta é minha testemunha, dando testemunho para todos os lados. Eu me chamo Procurado , muitos, me têm procurado, poucos me têm achado. Eu estarei à sua direita, fazendo sinal. Sou o facho que atrai todos os olhares na escuridão das frases. Eu crio seres. O óbvio, como não podia deixar de ser, pontificou. Estamos estarrecidos. Ficamos desaparecidos por um pedaço de tempo, por um compasso de espaço, o colapso passou de raspão. 
Cumpra-se o óbvio. O evidente previdente escondeu-se do vidente, a música, por um acidente do acaso, por um acidente esquisito, ocasionou esta sinopse. Originou esta delonga, refletiu este fluxo, repercutiu na pergunta. A solução é ineficaz para debelar o problema. O evidente acaba de ser visto. Entre monstrolusco e monstrofusco, entre o colosso e a esfinge, Occam fica como está. Fica como ficará, fica com quem cessou. O extravagante dá um passo avante devagar e fica perante: é o óbvio, e assim não vale. Estou ciente como se deve. Acontece que tudo o que eu digo, acontece portanto. Isso, por exemplo, já está havendo há muito tempo. Depois eu vou dizer tudo, não digam que eu não avisei. Eu já disse que isso acontece, está acontecendo aqui. Vai haver um mal-entendido, fazendo as vezes de desentendimentoo. Os entes de razão estão indo caminho da execução, acontece algo daquilo que eu contoo. Uns dizem coisas que a gente não sabe o que dizer. Dizem exemplos. Por exemplo, cada qual com seu igual. Os transeuntes batem em retirada. os batentes continuam itinerantes, alguém me disse, e eu me lembro que já ouvi..."




LEMINSKI, P. Catatau. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 1989.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Leminski



Ali



ali
só
ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse


se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece


 
Paulo Leminski

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Leminski

Fazia poesia
e a maioria saía
tal a poesia que fazia
fazia poesia
e a poesia que fazia
não é essa
que nos faz alma vazia
fazia poesia
e a poesia que fazia
tinha tamanho família
fazia poesia
e cada tábua que caía
doía no coração
fazia poesia
e fez alto em nossa folia
fazia tanta poesia
que ainda vai ter
poesia um dia.
Paulo Leminski

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Leminski


Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha
Sim, eu estarei aqui.


Paulo Leminski

sábado, 25 de julho de 2009

Leminski


"Apagar-me
Diluir-me
Desmanchar-me
Até que depois
De mim
De nós
De tudo

Não reste mais
Que o charme"


Paulo Leminski

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